Como pai de dois filhos deficientes, fui convidado para participar num programa de televisão, a fim de dar o meu testemunho.
Falei dos meus filhos, insisti no facto de me fazerem rir frequentemente devido às suas patetices e em não se dever privar as crianças deficientes do luxo de nos fazerem rir.
Quando uma criança se lambuza toda de chocolate, toda a gente ri; se ela for deficiente, ninguém ri. Essa nunca fará rir ninguém, não verá nunca rostos que riam ao olhar para ela, ou então alguns risos de troça dos imbecis.
Vi o programa que fora gravado.
Tinham cortado tudo o que dizia respeito ao riso.
A direcção achou que era preciso pensar nos pais. Aquilo podia chocá-los.
Mathieu está cada vez mais curvado. Os quineterapeutas, o espartilho de metal, não há nada a fazer. Com quinze anos, tem a figura de um camponês velho que passou a vida a cavar a terra. Quando o levamos a passear, só vê os pés, já nem consegue ver o céu.
A dada altura, pensei fixar-lhe na ponta dos sapatos uns espelhinhos pequenos, como se fossem retrovisores que lhe reflectissem o céu...
A escoliose agravou-se, em breve irá provocar problemas respiratórios. Uma operação à coluna vertebral deve ser tentada.
Foi tentada; ele está completamente direito.
Três dias depois, morre direito.
Por fim, a operação que devia permitir-lhe ver o céu foi bem sucedida.
Não julguem que a morte de uma criança deficiente é menos triste. É tão triste como a morte de uma criança normal.
É horrível a morte de alguém que nunca foi feliz, de alguém que veio dar uma volta à Terra somente para sofrer.
De alguém assim, é difícil recordar um sorriso.
Não gosto da palavra «handicap». É uma palavra inglesa, parece querer dizer «com a mão no chapéu»...
Também não gosto da palavra «anormal», sobretudo quando está ligada a uma «criança». Que quer dizer normal? Como deve ser, como devia ser, isto é, dentro da média, mediano. Não gosto por aí além do que é mediano, prefiro as pessoas que não estão dentro da média, aquelas que estão acima, e porque não aquelas que estão abaixo, em todo o caso, nunca como toda a gente. Prefiro a expressão «diferente dos outros». Porque nem sempre gosto dos outros.
Não ser como os outros não quer dizer forçosamente ser menos bem do que os outros, quer dizer ser diferente dos outros.
Que quer dizer «um pássaro que não é como os outros»? Tanto quer dizer um pássaro que tem vertigens, como um pássaro capaz de assobiar sem partitura todas as sonatas para flauta de Mozart.
Uma vaca diferente das outras pode ser uma vaca que saiba falar ao telefone.
Quando falo dos meus filhos, digo que eles «não são como os outros». Isso deixa no ar uma dúvida.
Einstein, Mozart, Miguel Ângelo não eram como os outros.
<Thomas tem medo do oceano, do barulho das grandes vagas. Tento fazer com que se habitue. Ando dentro de água com ele ao colo; agarra-se a mim, aterrorizado. Não me hei-de esquecer nunca do ser ar aterrado. Um dia, descobriu uma esperteza para pôr fim ao suplício e sairmos da água. Fez um ar trágico e, muito alto, para ser ouvido apesar do estrondo das ondas, gritou: «Cocó!» Julgando tratar-se de uma urgência, saí com ele da água.
Depressa percebi que não era verdade. Fiquei muito impressionado. Thomas não é idiota, tem, apesar de tudo, algumas ideias brilhantes no seu pequeno cérebro de passarinho.
Consegue mentir.
Uma criança deficiente tem direito de voto. Thomas é maior de idade, vai poder votar. Tenho a certeza de que reflectiu muito, pesou os prós e os contras, analisou meticulosamente os programas dos dois candidatos, a fiabilidade económica, fez o inventário do estado-maior de cada um dos partidos.
Ainda está hesitante, não consegue escolher.
Snoopy ou o gato?
Quando era novo, queria ter mais tarde uma caterva de filhos. Via-me a subir montanhas a cantar, a atravessar oceanos com uns pequenos marujos parecidos comigo, a percorrer o mundo seguido de uma tribo de crianças curiosas de olhar vivo, a quem ensinaria imensas coisas, o nome das árvores, dos pássaros e das estrelas.
Filhos a quem eu ensinaria a jogar basquetebol e voleibol, com quem disputaria partidas que nem sempre ganharia.
Filhos a quem mostraria quadros e que poria a ouvir música.
Filhos a quem ensinaria às escondidas certos palavrões.
Filhos a quem ensinaria a conjugar o verbo peidar-se.
Filhos a quem explicaria o funcionamento do motor de explosão.
Filhos para quem inventaria histórias divertidas.
Não tive sorte. Joguei na lotaria genética e perdi.
Onde Vamos, Papá? de Jean-Louis Fournier