Posso escrever aqui tanta coisa, e não me tenho lembrado de nada. Já me apeteceu despejar aqui uma data de textos, mas entretanto perderam-se. Eu geralmente ponho notas no telemóvel para me lembrar das palavras-chave de um texto, e assim o poder reproduzir. Só que nem sempre me lembro de ir ver.
Hoje fui.
Tenho uma que diz 'Quando o ridículo se generaliza, torna-se normal' - frase do filme 'I Could Never Be Your Woman', que eu tive o prazer de ver com a minha avó. E ai não que não podemos aplicar isto... A quantidade de ridículo que preenche as nossas ruas hoje é doloroso, mas é tanto que já é banal. Ninguém se importa, encolhemos os ombros e seguimos. Queixamo-nos do ridículo país, da freguesia, do presidente X e do deputado Y, da lei A e da regra B, mas não nos levantamos contra, achamos que já é o normal de sempre. Encolhemos os ombros e seguimos. A atitude é ridícula: mas tão normal que enjoa.
Outra nota perdida tem escrito 'Onde é que vais? - Com sorte, em frente.' - do filme Ratatui. O pobre do ratinho a ser repreendido pelo pai, por ser diferente, por estar a fugir à tradição, por querer novos horizontes e novas experiências... e quando se pensa que está tudo perdido e que o ratinho cede à pressão do pai, ele vira costas e começa a andar, sucedendo-se aquela troca de palavras em que o ratinho mostra ter uma sabedoria alargada: 'Com sorte, em frente'. Não é para onde queremos ir todos, honestamente? Em frente, e que seja o que Deus quiser... com sorte, o caminho é mesmo para a frente.
E, entretanto, lembrei-me de um terceiro bom tema para compensar a minha falta de inspiração dos últimos dias: Amores de Telenovela.
Não, não vou escrever um texto amargurado em como dos amores da vida real se esperam cenas telenovelescas, nada disso. Hoje critico mesmo a capacidade das pessoas viverem os amores telenovelescos quando nem entram na telenovela nem têm namorado. Na verdade, é prodigioso, podia bater palmas e tudo.
Ora, eu não sigo telenovelas portuguesas ou brasileiras, dessas que os comuns portugueses não perdem 2 minutos, mas vamos fingir que eu até sei o que se passa. Não é difícil. Há com certeza um bonito rapaz, com um ar jovial, imensa maquilhagem na cara, os músculos tonificados, a depilação feita, a respeitar uma dieta saudável, que não fuma, não bebe, não lança comentários ordinários às miudas e é um doce com crianças. Chamemos-lhe João Pedro (juro que não embirro com ninguém assim chamado). Há também uma bela rapariga, com um ar ainda mais jovial, podre de boa, com uma barriga lisíssima, um excelente rabo e um peito grande e firme como desejado, desportista, simpática de sorriso pepsodent, boas notas e uma autêntica assistente social por vontade própria. A esta chamamos Cristina (também não embirro com nenhuma assim chamada). Ora, na dita telenovela (que não tem nome), a Cristina e o João Pedro conheceram-se completamente inesperadamente, mas têm umas vidas muito difíceis, coitadinhos. E depois, quando está quaaaaaaaase a chegar o momento em que, pronto, chega o casório, lá chega um imprevisto monumental que os impede de proclamar o esperado 'viveram felizes para sempre'. Que chatice.
Mas aqui não vou criticar o guião. Isso é lá com os guionistas que, coitadinhos, podiam ter um bocadinho mais de imaginação, mas não falemos disso hoje. Critico o bom do público da telenovela da Cristina e do João Pedro. Adolescentes, jovens, que não têm tempo para relações, que não se aplicam a sério para serem felizes a dois, que não amam nunca o suficiente para fazerem sacrifícios por outra pessoa (ou até pelo resto do mundo que os rodeia), vão gastando as energias em frente à televisão a sofrer os desgostos de amor da Cristina e do João Pedro. Mas será possivelmente normal não haver empenho e esforço para ter uma vida a dois porque não se quer sofrer e contudo andar a chorar sempre que a Sónia (de quem eu não falei, mas é má da fita) se mete na relação e estraga tudo?!
Cada vez que repito para mim que 'o problema deste mundo é isso mesmo, as pessoas nunca acreditam em nada, nunca amam o suficiente para acreditarem no absurdo' mais sentido faz. Podem sofrer os desgostos dos outros, sofrer a telenovela toda, mas sofrer na própria vida já não. Porque não sofrer na vida real para receber de volta a felicidade de um 'amor, amo-te'? Realmente, mais vale andar a chorar porque o casamento da Cristina e do João Pedro foi adiado mais 14 episódios e quando o casamento realmente acontece e a novela acaba, passar horas no vazio a pensar com que é que se anda a perder tempo - e ver a telenovela que começa no dia seguinte, claro, com a Filipa e o Zé Maria, para encher o vazio que a Cristina e o João Pedro deixaram.
Qual é a ideia?!
'But don't get the wrong idea, we're gonna shoot you.'