quarta-feira, 23 de abril de 2008

Egoístas - não seremos todos?

"E, contudo, há coisas que me comovem. Um homem com um fato de mau gosto e gravatinha de napa, dando-se ares de importância. Outro cujo carro avaria na ponte num domingo de Verão. Outro ainda que mete dez euros de gasolina a um sábado de manhã. Os operários ucranianos que se despediam uns dos outros junto ao autocarro, em Portimão, naquele Natal em que alguns voltavam a casa e outros permaneciam aqui. O preto de Parati que levou a namorada a jantar entre os turistas e com ela dividiu uma lasanha e um guaraná. Dêem-me a obra completa de Whitman, todas as árias de Bach e os mais surpreendentes pratos do chef Melo - nenhum deles alguma vez conseguirá comover-me como aquele preto que levou a mulher a jantar pela primeira vez, se sentou lado a lado com ela sem alguma vez olhá-lha nos olhos, dividiu pausadamente a lasanha em dois, muito cerimonioso, repetiu o gesto com a lata de guaraná, pingo a pingo, pagou a conta com a nota de dez dólares que lhe chocalhava solitária na carteira de velcro e, quando enfim havia já saído em direcção ao morro, voltou atrás para deixar como gorjeta os dois dólares que lhe haviam sobrado à excentricidade. Basicamente, comove-me a solidão, comove-me a impotência - comove-me a derrota de um homem digno às garras da macroeconomia e a forma como isso acentua a sua solidão e a sua importência.
«O altruísmo é a forma mais inteligente de se ser egoísta». É o que eu sou, um egoísta. Um egoísta quando falo mal e quando me comovo. De resto, temo que o sejamos todos"
Joel Neto in NS (adapted)

terça-feira, 22 de abril de 2008

Politics!

Numa democracia, os conflitos são abertos e negociáveis.

Não é descobrir quem é que engana mais, não é ter cunhas para tudo, não é evitar a abertura de vagas universitárias para permitir mais rendimento a um menor grupo de empregados, não é dissimular tudo, não é controlar a imprensa e certamente não é mau clima. Por alguma razão se condenam o fascismo, o comunismo, as ditaduras e as opressões.
Retórica Sofística - discurso enganador. Conjuga a retórica, a arte de seduzir através da palavra, com a sofística, o conjunto de técnicas destinadas a defender uma tese utilizando raciocínios falaciosos.

But why?

'And I can't stand the pain,
And I can't make it go away,
No, I can't stand the pain.

How could this happen to me?
I've made my mistakes...
Got nowhere to run...
The night goes on as I'm fading away.
I'm sick of this life,
I just wanna scream.
How could this happen to me?'

Antes era assim... uma playlist de músicas dark, a ponta da almofada molhada, um lenço amarrotado ao pé da cama, e no dia seguinte estava tudo bem.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Ajuda de Berço






Este ano a Ajuda de Berço, com o apoio da Crioestaminal, tem um site inteiramente dedicado ao dia da mãe onde qualquer pessoa pode deixar uma mensagem de agradecimento à sua mãe. Por cada mensagem deixada no site até dia 4 de Maio, a Ajuda de Berço recebe €1, e assim contribui-se para o sorriso de mães e crianças.


sábado, 19 de abril de 2008

(...)
2. Por favor,
respeita o meu silêncio,
o silêncio é a minha melhor arma.
Escutaste as minhas palavras
quando fiquei silencioso?
Sentiste a beleza do que disse
quando não disse nada?
Nizar Kabanni

terça-feira, 15 de abril de 2008

Burden

Quando decidimos comprometer-nos com alguém, seja um amigo, um colega, um namorado, um sócio, estamos claramente a correr um risco. Estamos a depositar a nossa total confiança em alguém, estamos a partilhar uma responsabilidade que antes acarretávamos sozinhos, estamos a aliviar a nossa carga dependendo da capacidade desse alguém de carregar também. E fazemos isto muitas vezes, e parece-nos bem, parece muito bem. Somos humanos! Em primeiro lugar temos aquela coisa de sermos seres sociáveis, seres que têm a necessidade da interacção - isto assim até parece um teste de Filosofia. Mas sim, interagimos porque é uma necessidade humana e é saudável. Continuamos a ser humanos quando chega a parte em que erramos. Quando afinal deixamos cair o peso no outro, quando nos esquecemos do fardo, quando deixamos de querer saber daquela carga que estávamos a carregar a meias com alguém. Nem sempre vemos que errámos quando deixámos o outro sozinho a carregar tudo. Vemos bem isso quando damos por nós com o fardo todo às costas. Que nem era assim tão pesado, mas agora que o outro tem outro fardo, nós temos as consequências mais o fardo - e assim pesa mais. Saber perdoar é precioso e precioso é saber ver que o erro não está só num, está em todos nós. Por isso não se aponta o dedo.
Lamento imenso carregar sozinha, mas é o meu fardo, com as minhas consequências, os meus objectivos. E é só meu. Carrega o teu que eu fico feliz o suficiente de saber isso. Não importa o peso.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

All you need is love

Para um ser humano amar outro: esta é talvez a mais difícil de todas as tarefas, e a fundamental, o último teste e prova, o trabalho pelo qual todos os outros são apenas preparação.
Rainer Rilke
Depois de decidir publicar que a lição mais difícil de aprender é que no fim do dia estamos todos sozinhos, descobri num episódio antigo do Brothers & Sisters uma citação de Rainer Rilke que defende que a tarefa mais difícil é um ser humano amar outro.

- Porque é que nós, seres humanos complexos, amamos outros seres humanos complexos?
Perguntava-se muitas vezes isto. Quando estava sozinha, quando a noite caía e se via coberta com um cobertor fofinho e a televisão ligada. A verdade é que se perde tempo, paciência, ganham-se uns cabelos brancos, vertem-se lágrimas e a dor é de certa forma constante. A tarefa mais difícil. Mas sendo a mais difícil, pode ser também a que mais compensa. Talvez por ser rapariga ou por nem querer saber o que é que se passava na televisão ligada, ia pensando na recompensa. A pergunta a seguir é sempre 'mas eu já amei alguém?'. Isto dava cabo dela. Como é que pode saber? Um melhor, outro pior, mais giro, mais feio, alto, baixo, gordo, magro, elegante, atlético, simpático, teimoso, cobarde, infiel, amigo. É indiferente, a certo ponto, pensava. E duvidava da recompensa ser um anel no dedo e uma casa com uma cerca branca. Bem, tinha ido buscar o cobertor ao armário e tinha-se tapado com ele. E tudo podia começar por o poder ouvir a tirar o cobertor do armário e depois tapá-la. Tapá-los. É justo assim. Parecia-lhe bem poder aninhá-lo e fazer-lhe festas. Uma mensagem inesperada colada na porta do frigorífico, porque ele foi trabalhar mais cedo, que diz 'amo-te'. É, sem dúvida, a tarefa mais árdua. Mas a compensação é grande. E exige perseverança e trabalho, não há felicidade oferecida.
Abanava a cabeça e deixava os devaneios. Não estava sozinha. A chave rodava na porta. Fora árduo chegar à partilha da casa, juntar as escovas de dentes como se diz, e ela achava piroso. Ele hoje trabalhara até mais tarde, mais trânsito, não a tapara com o cobertor. Mas dentro de 15minutos ia estar aninhado. E dentro de 20 ela ia estar levantada a fazer torradas, que iam saber ao melhor do mundo.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

What about loneliness?

Por mais acompanhados, por mais saudosos e desesperados, por mais quentes que nos julguemos. No fim do dia, estamos todos sozinhos. Se não é a lição mais dura de todas, eu gostava de saber qual é. Já tentei não a aprender, passar por cima, espezinhá-la e gritar-lhe que todos temos uma mãozinha para agarrar. No fim do dia, estamos todos sozinhos. Não nos valem crenças, fés, rezas, amigos, amores e diria que nem família. Cada um depende de si e traça o seu destino e futuro. Não acredito num destino pré-traçado. Antes acreditava num destino traçado em conjunto. Mas no fim do dia estamos todos sozinhos, o destino é traçado em solidão. E há que fazer poucas previsões. Quanto menores forem as expectativas, melhor. Se correr bem, há o gosto de vitória. Se correr mal, é mais fácil resistir.
Às vezes é preciso abdicar. Talvez em vista a um futuro mais sorridente ou mais seguro. A verdade é que no discurso giro de que devemos arriscar e lutar por mais, são mais as lágrimas que os sorrisos e a quantidade de coisas que têm de ficar para trás até assusta. Acompanhados num momento, mas sempre sozinhos no fim do dia.

Sou livre e sou linda 24h por dia, 365 dias por ano.

sábado, 5 de abril de 2008

Já parei de querer descobrir porque é que é assim. Não sei porque raio é que o ser humano acredita na eternidade, em momentos eternos, amizades eternas, relações eternas, negócios eternos, paz eterna. Não vou criticar a torto e a direito, sofro do mesmo mal. E até sou das tontas que fazem trinta por uma linha para realmente ser eterno. São batalhas notáveis. Dolorosas. Inesquecíveis, sem dúvida. E chega um momento em que lutar contra a corrente realmente faz doer as barbatanas. Aí acaba-se a capacidade de batalhar pelo eterno. Uns batalham e outros vêem batalhar, mesmo que o objectivo seja comum. A verdade é que nem é o fim da batalha, a dor da batalha ou o cansaço que me levam a escrever isto. É que não percebo o que é fiz aos meus eternos, por mais que tente perceber. Sem mais nem menos perderam o sentido. Será que cresci? Será que mudei? Eu insisto na minha falta de tempo. Têm todos tanto tempo, eu estou sempre a contar o meu até aos segundos, como se estivesse a contar moedas de 1 cêntimo para pagar uma conta com a pressão de não ter cêntimos suficientes. Voltamos então ao problema da média. Mas fica só assim referido, não quero discutir isto. Atribuo-lhe a falta de tempo. Atribuo ao que sou. Por mais que eu quisesse ter tempo para todos, para manter todas as amizades a funcionar, para ver todos, saber de todos os problemazinhos desde as dores às alegrias, precisava de tempo e de paciência e de menos cansaço. Eu mal lido comigo. Nem parece meu, isso chateia-me. Esforço-me sempre tanto para espalhar aquela mensagem de que não são as pessoas que se vestem de cândidas e vão à missa every single sunday que são boazinhas, são as que acreditam livremente e que tratam bem outras pessoas, só que este discurso também já está muito batido por mim. Fiquei em paz comigo muito rapidamente. Dói-me, evidentemente que dói. Quando penso nisso, quando me perguntam por mim. Mas nas semanas em que eu trabalho, em que eu cuido dos que me estão mais próximos, em que divido o meu tempo muito organizadamente, também ninguém me disse nada. Não culpo ninguém, era incapaz, mas a verdade é que funciona assim. Se calhar nenhum de nós tem tempo. Vejo é mais uma pressão em cima de mim, deveria sempre ter sido eu a querer combinar, a querer saber. Não posso.
Viver sob pressão é um inferno.

Amanhã às 9h vou à missa, talvez me faça bem.