quarta-feira, 23 de abril de 2008

Egoístas - não seremos todos?

"E, contudo, há coisas que me comovem. Um homem com um fato de mau gosto e gravatinha de napa, dando-se ares de importância. Outro cujo carro avaria na ponte num domingo de Verão. Outro ainda que mete dez euros de gasolina a um sábado de manhã. Os operários ucranianos que se despediam uns dos outros junto ao autocarro, em Portimão, naquele Natal em que alguns voltavam a casa e outros permaneciam aqui. O preto de Parati que levou a namorada a jantar entre os turistas e com ela dividiu uma lasanha e um guaraná. Dêem-me a obra completa de Whitman, todas as árias de Bach e os mais surpreendentes pratos do chef Melo - nenhum deles alguma vez conseguirá comover-me como aquele preto que levou a mulher a jantar pela primeira vez, se sentou lado a lado com ela sem alguma vez olhá-lha nos olhos, dividiu pausadamente a lasanha em dois, muito cerimonioso, repetiu o gesto com a lata de guaraná, pingo a pingo, pagou a conta com a nota de dez dólares que lhe chocalhava solitária na carteira de velcro e, quando enfim havia já saído em direcção ao morro, voltou atrás para deixar como gorjeta os dois dólares que lhe haviam sobrado à excentricidade. Basicamente, comove-me a solidão, comove-me a impotência - comove-me a derrota de um homem digno às garras da macroeconomia e a forma como isso acentua a sua solidão e a sua importência.
«O altruísmo é a forma mais inteligente de se ser egoísta». É o que eu sou, um egoísta. Um egoísta quando falo mal e quando me comovo. De resto, temo que o sejamos todos"
Joel Neto in NS (adapted)

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