«Não passo um dia sem te desejar, nem uma noite sem te apertar nos meus braços; não tomo uma chávena de chá sem amaldiçoar a glória e a ambição que me mantêm afastado da vida da minha vida. No meio das mais sérias tarefas, enquanto percorro o campo à frente das tropas, só a minha adorada Josefina me ocupa o espírito e o coração, absorvendo-me por completo o pensamento. Se me afasto de ti com a rapidez da torrente do Ródano, é para tornar a ver-te o mais cedo possível. Se me levanto a meio da noite para trabalhar, é no intuito de abreviar a tua vinda, minha amada.
(...)
Adeus, mulher, tormento, felicidade, esperança da minha vida, que eu amo, que eu temo, que me inspira os sentimentos mais ternos e naturais, como me provoca ímpetos mais vulcânicos do que o trovão. Não te peço amor eterno nem fidelidade, apenas verdade e uma franqueza sem limites. No dia em que disseres: 'Quero-te menos', será o último dia do amor. Se o meu coração atingisse a baixeza de poder continuar a amar sem ser amado, trincá-lo-ia com os dentes.
(...)
Perdão, amor da minha vida. A minha alma está neste momento dividida em várias direcções e combinações, e o coração, só em ti ocupado, enche-se de receios...
(...)Napoleão»
Ao que parece, na semana dos namorados (caiu no esquecimento que é um dia, já se fala até do mês dos apaixonados, por isso vale tudo) já não são só as montras e os anúncios que se enchem de vermelho, rosa, corações, beijinhos, anjinhos, flechas e romances épicos. "Roubei" o Sol ao meu avô, para variar um bocadinho a actividade do serão de sábado e ver se caio na realidade mundana, ver se percebo um bocadinho do que se passa. No entanto, a carta acima transcrita provém de uma nova secção da revista Tabu, que acompanha o jornal Sol, chamada 'Cartas de Amor de Pessoas Célebres'. Suponho que seja interessante, pena que não as tenha lido todas. Transcrevi uma pequena parte da seleccionada da semana. Na verdade é uma lamechice de Napoleão, a queixar-se que a sua Josefina o tratara na terceira pessoa na última carta que escrevera e que se tal acontecia ao fim de quatro dias, como seria ao fim de quinze. E o pobre enamorado roía-se de dúvidas e questões acerca do amor que a pobre sentia por ele. Mas 'todas as cartas de amor são ridículas', bem disse Fernando Pessoa.
Já que estou a retirar textos da revista, continuo. Fiquei deliciada com a crónica do Luís Filipe Borges (secção Portugal Revisto e Aumentado), que esta semana não revista Portugal, não revista políticos, não revista acontecimentos, não revista ninguém! O título é 'Fragmento de um discurso amoroso'. Uma crónica ridícula, mas vá lá, tem de haver uma semana em que todos vamos buscar os fundinhos de amor e ridículo que esperam adormecidos à espera da sua vez de falar mais alto.
«Fragmento de um discurso amoroso
Será aconselhável escrever uma crónica no dia mais feliz da nossa vida? As letras do teclado não se sentirão porventura envergonhadas por nós, quando nelas batemos com a agilidade de quem está convencido que aprendeu a voar? Valerá a pena gritar ao mundo que o cinismo não passa do remédio que os tristes tomam para se poderem levantar da cama no dia seguinte - qual metafísico Guronsan contra a ressaca dos vencidos da vida? E, já agora, quantas perguntas podem aceitavelmente caber num parágrafo antes que o editor sofra de um legítimo ataque de «Irra que já chega pieguices, pá?!»
(...)
Acabo de me tornar oficialmente noivo (...) O amor é eterno enquanto dura, enquanto duro, enquanto duracell, enquanto dado, dedo, dardo, dois dias, deus, data, dela, doido. Perdoem-me. Quem nunca esteve apaixonado que atire a primeira pedra. (...) Hoje sou um super-herói, um guerreiro, um bailarino do La Féria, um vibrante fã de Tony Carreira que agita eufórico o bilhete para o próximo concerto no Pavilhão Atlântico, hoje sou o rei dos foleiros. Orgulhosamente.
(...)
Sim, sou um português apaixonado. Tenho 30 anos e a mulher da minha vida aceitou casar-se comigo. Hoje não quero saber do António Nunes, do Camacho, do porta-voz dos McCann, do aumento exorbitante do pão, dos avanços e recuos do Mário Lino, do arquivamento do caso Bexiga, não quero saber de Otas, Opas, aeroportos nem remodelações, e digo-vos mais: voltei a espreitar, há bocadinho, os edifícios assinados pelo engenheiro José Sócrates e, a bem dizer, não tenho agora quaisquer dúvidas em como se tratam de obras-primas da arquitectura. E as Amoreiras? Lindas! E os estádios novos do Euro 2004? Úteis! E Luís Filipe Menezes? Brilhante! E uma moçoila do Elefante Branco? Barata! E os jogos amigáveis da selecção? Épicos! E Pinto da Costa? Inocente! E conduzir em contra-mão? Seguro! E o ministro do Ambiente? Famoso! E esta crónica? Lúcida!
(...)
A mulher que convenceu o escriba de que até neste país adiado se pode ser imensa, esperançosa e irremediavelmente feliz.
(...)»Luís Filipe Borges, in revista Tabu, 16/Fev/2008
Ridículo e lamechas e piegas e foleiro, sim. Mas porque não? Esta semana tem sido propícia aos meus discursos insuportáveis em como a humanidade consegue, pode e deve amar. Se uma pessoa amasse 5 pessoas e cada uma dessas 5 pessoas amasse outras 5 pessoas, formava-se uma cadeia fantástica. E se por amar entendêssemos cuidar, agradar, fazer sorrir, acompanhar, e outros verbos queridos que hoje nem sabemos a quem associar, em vez de pensarmos em beijos, abraços, roçanços, abraços e namorados, podíamos ser uma sociedade tão mais feliz. Mas ninguém tem o trabalho de acreditar em mim, mas eu continuo na minha filosofia. Sem me dispersar, o bom do homem escreveu uma crónica com pouco sentido, nem quer saber do que se passa no país e já tudo lhe parece colorido. 'O amor é eterno enquanto dura', também acho, e sobretudo enquanto sabemos tirar o melhor partido dele. Mesmo que para isso se escrevam cartas de amor ridículas e crónicas foleiras. Ninguém disse que o amor era sóbrio.