Até Amanhã Avó.
Avó, lembra-se de brincarmos aos porquinhos? Lembra-se de andar de gatas comigo debaixo da mesa da sala de jantar, quando já tinha 80 anos?
E das escondidas, lembra-se Avó? 'Agora a Avó fica aí, e eu vou-me esconder, tá bem?'
Lembra-se de fazermos bolachas Avó? Lembra-se que a Avó Teté não queria que eu fizesse bolachas sozinha, deixou-a a tomar conta de mim, mas depois a Avó não se importou que eu deitasse os ingredientes que me apetecessem? E estavam boas as bolachas... hoje sei que foi a Avó que as arranjou para que eu não ficasse triste se elas fossem más, mas é segredo.
Lembra-se das roupinhas das minhas bonecas?
E das muitas calças que eu rompi e a Avó coseu, que precisaram de bainhas, de serem apertadas na cintura ou simplesmente modificadas ao meu gosto? Lembra-se de todas, Avó?
Lembra-se de me levar para aquele seu pequenino altar, que tem no quarto, e de me ensinar a rezar? Lembra-se de rezarmos sempre que os tios tinham exames? E sempre que algo corria mal? Lembra-se Avó?
Era a Bisavó, mas sempre lhe chamámos Avó. Já viu Avó?
Ficam as boas memórias, vou tentar apagar o tempo que a vi no hospital. Vou apagar o seu ar débil, as suas mãos ossudas, a sua pele sem cor. Vou apagar a sua fragilidade, vou apagar as vezes em que tive de lhe dar sopa por uma espécie de biberon. Vou apagar isso tudo, porque não interessa.
Guardo só a última vez que lhe passei a mão no cabelo, lhe dei um beijo na testa e lhe apertei a mão, com imenso cuidado para não mexer nenhum tubo nem a magoar.
E eu sussurrei 'Tenho de ir, Avó. Mas eu volto quando puder, está bem?'; a Avó respondeu, com um imenso esforço e uma tentativa de sorriso: 'Sim, minha filha... Até Amanhã'.
E que assim seja, Avó. Até Amanhã.

Sem comentários:
Enviar um comentário