O cabelo esvoaçante, de um castanho que não se pode descrever, brilhante demais, luminoso demais, um tom desconhecido, com madeixas acobreadas. O cheiro da rua, cheiro quente e misturado, de erva e roupa a secar e pó e fruta fresca e guisados ao lume, à volta dela - e dela o melhor cheiro, adocicado e tão fresco, quase tocável no quente da rua, sempre, o rasto do perfume dela. Perfume que saía do cabelo que ondeava e acompanhava o balanço do corpo.
Dançava rua abaixo, balançava e encantava, movimentos leves consecutivos.
Os olhos iluminados e iluminavam, escuros resplandecentes, de beleza aumentada pelas pestanas incomensuráveis, arqueadas num arco perfeito. Tão morena e suave, a pele impressionava, aos olhos apetecia, ninguém tocava.
Ele parava na janela, em pedra, encostava ao parapeito. Moreno em pasmo, igualmente apetecível, os olhos em sonho, pausa e desejo, belos. Olhá-lo e querer o olhar dele, só olhava para ela. Parava em cada movimento da dança dela e sabia-lhe o ondear do corpo. Sentia-lhe o perfume do cabelo desde que ela começara a descer a rua, sorria ao seu perfume. Fixado nos olhos e pestanas e na boca em sorriso, era-lhe toda apetecida.
Foi um momento em que ela olhou para a janela, parou-se a dançar e o movimento e o ondear. Parou-se a respiração compassada dele. Ninguém alguma vez adivinharia que nunca antes se haviam olhado. Apeteceram-se e sorriram-se e emanavam sintonia. Roubaram sorrisos e olhares, ele deu-lhe o olhar desejado, ela deu-lhe o sorriso rasgado.
Descem a rua a dançar, ele agarra-a pela cintura. Sorriem-se no calor do sol, na poeira e no cheiro da erva. Trocam carícias na pele, e a pele dela é seda. Dançam rua abaixo e ninguém adivinha maior felicidade, maior segredo, que o que têm enquanto dançam.
Ana

Sem comentários:
Enviar um comentário