quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Uma... Duas... Três... Quatro... Cinco... Seis... Sete... Oito... Nove... Dez... Onze... Doze. Doze badaladas do relógio do corredor que se misturaram com o chocar da chuva na vidraça. Virou-se outra vez na cama, revolveu os lençóis, encostou-se de lado, ficou com as costas - nuas, largas, suaves, másculas, sólidas - ao frio. Ela não está, repetiu mentalmente, não está não está. Largaram a pergunta porquê? há muitos minutos atrás, quando se deitara, ainda havia luz na rua, apesar do cinzento do dia de Inverno. Se dormisse o tempo passava e ela voltasse mais depressa, ou talvez só voltasse. Mas já é meia-noite, cantou o relógio, e ela não está.
As costas dele ao frio, a pele começa a sentir-se. Há fios de cabelo escuro na almofada e um leve cheiro dela no lençol, não há o calor, os braços, a respiração, o ar quente do seu interior nas costas dele. Ele revirava-se e aspirava o cheiro do lençol, um, dois, três, quatro cabelos escuros, com jeitos, ondeados, pousados perdidos na almofada a gritar que ela dorme aqui. Hoje não está, e chove. Chove tão forte.
Volta, volta, volta. Começava a sentir o desespero da ausência dela, desespero - levantar, correr, sair, sentir a chuva, andar até ela, pegar nela, embrulhá-lha, levá-la, aninhá-la na cama que é deles e que está tão fria, vazia, áspera, sem ela.
Falta-lhe o recorte do perfil dela na luz amarelada que entra pela porta, a respiração lenta de quem dorme e que o convencia a dormir, os braços esguios que o rodeavam, o cabelo enrolado na almofada, as pernas sedosas que se aconchegavam nas suas. Falta-lhe a paz, a docilidade, a ternura, o quente, ela.
Revolveu os lençóis, virou-se, fixou o tecto, já mal está coberto, ignora o frio, a chuva, o relógio, os carros, tudo, excepto ela.
Chave na porta, a porta a bater, chaves pousadas, casaco atirado a um canto, passos no corredor, calças, cinto, camisolas no chão, recorte dela na porta - o cabelo solto e revolto, os ombros finos, os braços esguios, a cintura cavada, as ancas, as penas, todo o corpo que roça a perfeilção de uma escultura.
Ele petrifica, sorri, respira. Ela trepa para a cama. Braços, abraços, enrolar de pernas. O calor, a paz, a ternura, o cabelo revolto na almofada. Já tem o calor da respiração.
É tarde, mas ela voltou.
Ana

- inspirado no título do livro 'É Meia Noite, Chove e Ela Não Está Em Casa', de Ana e Isabel Stilwell

Sem comentários: