quarta-feira, 12 de março de 2008

Olha as horas...

Olha as horas... Explica-me, como é que é tão tarde? Sabes tanto quanto eu, para quê perguntar? Não vale a pena barafustar e dizer que assim não dá, não resulta olhar para o relógio e perguntar-lhe também porque é que deixou os ponteiros darem a volta mais depressa. Isto sim, é ficar perdido.
Quando me quero lembrar dos pormenores, estão todos perdidos na minha cabeça. Não há maneira de os passar a palavras. Conheço tão bem o cheiro, mas não me posso lembrar dele assim. Conheço o toque e os braços, a mão que me aconchega e o rosto que me sorri. O rosto não posso esquecer. Os braços não sei, não posso, descrever. Deve ser isso que aumenta a saudade. Mas enquanto me interrogo sobre o passar do tempo isto não me preocupa. Sabes que não. Estamos tão leves.
Olha as horas, mas continuamos deitados. Boa noite amor, dorme que eu durmo também. Onde é que tínhamos de ir, pois não sei. Podíamos viver assim, enroscados, aninhados. Podias passar os dedos no meu cabelo sempre assim e eu podia mostrar-te sempre como encaixo no ombro. Porque não?
Lembro-me às vezes de acreditar que não devemos ter nada como garantido. Não me perguntes se ando a ser fiel ao ideal. Deixei de me esforçar? Não, acho que não. Achas que não. Continuas as tuas juras baixinho, com todos os 'acredita' e sim, eu acredito. Deixa-te ficar. Deixo-me ficar, sim. Penso nisto agora, mas não sei se pensei nisto enquanto nos atrasávamos mais e mais. Provavelmente não.
Olha as horas. É tão tarde. Mas pensa. É tarde para quem? A tarde ainda vai a meio. Vamos a algum lado? Não vamos. É tarde onde, amor? Olha as horas... Mas nem sequer é tarde.

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