«Era um país que se desmontava todo, feito de propósito para caber nas histórias e para ter espaços em branco para colorir. Tinha as ruas cheias de casas de bonecas e os carros que andavam nas ruas desmanchavam-se todos para poderem ser sempre diferentes. Eram sempre carros novos e as casas de bonecas também mudavam muitas vezes de sítio, de modo que parecia que os carros e as casas estavam sempre a trabalhar muito e depois ninguém sabia onde tinha deixado a casa e ninguém sabia também onde tinha deixado o carro, porque estes já não eram a mesma coisa e nunca eram coisas iguais.Toda a gente andava sempre, claro, com ar de estar muito perdida e as pessoas que procuravam as casas andavam sempre a olhar para cima e as pessoas que procuravam os carros andavam sempre a olhar para baixo, de maneira que toda a gente sabia sempre de que é que os outros andavam à procura. Como ninguém nunca encontrava nada porque as coisas deixavam de ser as mesmas, as pessoas viviam sempre nas casas dos outros e andavam sempre com os carros dos outros e não era por isso que deixavam de fazer curvas muito depressa e de fazer os travões chiar muito e de pôr cortinas com flores nas casas que não eram deles, porque neste país toda a gente guiava assim-assim e nunca sabia muito bem se estava na casa dela ou não.
Mas mesmo na casa dos outros se pode ver televisão e aprender a ler e pôr mais cobertores na cama e ver chover muito da janela e então ninguém se importava muito.»
in As Coisas de João Miguel Figueiredo Silva
De um livro de infância que eu gostava muito. Ou do qual talvez não gostasse nada, mas gostei de o encontrar e de o abrir e de o ler. A história toda tem pouco interesse para público com idade superior a 6 anos, que talvez nem perceba nada da história nem o interesse de um país que se desmancha todo e que tem muitas histórias e um rei que sabe tudo.
A imagem acima, ao lado da história, foi feita por uma criança norte-americana e retrata uma casa amorosa. O desenho abaixo foi o que uma criança natural do Darfur e refugiada no Chade desenhou enquanto uma enviada dos Direitos Humanos entrevistava os seus pais. Retrata o terror dos ataques violentos no Darfur. A doutora fez questão de ver alguns dos desenhos de outras crianças e em muitos encontrou desenhos semelhantes, aviões a bombardearem aldeias, homens armados, tanques, pessoas mortas e mulheres a serem violadas. Estes desenhos são as únicas imagens que existem daquele terror. Feitos por crianças. O que é que se passa no mundo em que vivemos?

2 comentários:
Um bj, por causa das coisas
João Miguel Figueiredo Silva
Um bj, por causa das coisas
João Miguel Figueiredo Silva
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