Não me digas que é assim tão difícil, nunca tiveste problemas com danças, cantorias, espectáculos e públicos. Em pequena recortavas bilhetes em cartolina, borravas-te toda com a maquilhagem da avó e juravas que os teus pés 29 cabiam nos saltos altos 39 que encontraste no armário. Qualquer trapo era um vestido de princesa, ou uma farda de criada, ou uma armadura de cavaleiro. Convencias todos os miúdos a actuar contigo e todos os graúdos a sentarem-se para assistir. Eras realizadora, argumentista, encenadora e coordenadora do guarda-roupa. E, na verdade, mesmo que fosse um espectáculo em que fosse um espectáculo em que eras a única actriz, brilhavas.
Agora cresceste, encerraste-te me livros e linhas e tintas, matérias, estudos, cálculos e contas. Começas a querer ser grande mais do que tens saudades de ser pequena, e não pareces preocupada. Queixas-te de que não tens coragem para falar de pé à tua turma. Não sei quem te iludiu e enganou, quem te roubou a inocência que te mantinha a entoar, em plena sala de estar convertida em sala de espectáculos, notas musicais nunca antes arriscadas... Está tudo em ti, mas nem tu sabes.

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