quinta-feira, 26 de julho de 2007

Dia dos Avós

Meu querido avô:
desculpe-me todas as vezes em que fui teimosa, todas aquelas em que pensei coisas que preferia nunca ter pensado. Desculpe-me não passar mais tempo aí em casa, nem telefonar, mas é que eu não consigo lidar com tudo e neste momento a minha cabeça está uma confusão. É da idade, bem sei, mas tenho de aprender com isto tudo, por muito difícil que me pareça. Não me culpe, por favor, eu gosto imenso do avô, sabe disso. Posso não telefonar todos os dias, ou todas as semanas, posso não aparecer uma ou duas vezes por mês, mas não quer dizer que goste menos do avô do que os outros 20 netos gostam. A sério.


Minha querida avó:
sim, é certo que quando a avó morrer eu vou chorar muito, exactamente como me está sempre a lembrar. A avó diz que já pediu à sua protectora madrinha, Santa Teresinha, que lhe dê mais 6 anos de vida e ao avô também, para poderem pagar tudo e ainda terem 2 aninhos para aproveitarem a vida "antes de andarem de bengala". A minha madrinha é uma santa, mas não lhe posso pedir isso, por isso peço a Jesus, como a avó me ensinou sempre, que dê à avó mais uns aninhos além desses 6, com toda a saúde e consciência possíveis. Para a avó poder ver como eu vou ser feliz na minha vida, para estar no meu casamento (como sempre me disse que ia querer estar), para eu saber que estou a crescer e a aprender mas que a minha avó, que me tratou quando era mínima e tinha 2 meses, está aqui se eu precisar. Não me abandone avó, já me dói o suficiente viver sem a outra avó, está bem? Adoro-a avó.



Avô:
lamento imenso ir aí raramente. Lamento ir aí e nunca o ver, lamento que haja sempre discussões e que seja raro o momento em que estamos bem só a brincar e a conversar. É assim desde que a avó morreu. A avó era o elo de ligação dessa família, uma autêntica diplomata, permitia que estivéssemos todos aí em casa, bem dispostos, sem discussões. A avó morreu e acabou tudo. Ergueram-se muros, abriram-se discussões, levantaram-se feridas antigas, separaram-se pessoas. Dói imenso ver. Lamento não ir aí a casa, peço imensa desculpa, mas dói-me sempre entrar pela porta e não sentir o cheiro da avó, dói-me saber que se a quiser ver só nas fotografias que estão nas molduras cheias de pó da sala e se quiser amparo tenho de ir ao cemitério e contentar-me com Avé-Marias, Pais Nossos e lágrimas. E essa casa é um vazio sem a avó, nada é o que era, praticamente nada corre bem, com a avó morreu a casa e morremos nós a pouco e pouco. Desculpe avô, a sério que tento ser melhor, mas nem sempre consigo. Gosto imenso do avô, das suas histórias, das vezes que nos leva a passear e de quando vamos à praia. Aprecio o esforço que faz para que nós comamos bem quando estamos aí, para que queiramos sempre voltar.




Minha avó:
é incrível, este ano já vai fazer 7 anos que a avó partiu e agora me guarda aí de cima. A Teresa não se recorda muito da avó, a Rita praticamente não sabe quem é e a Luísa nunca a conheceu. A sua morte foi um alívio para a avó, tenho a certeza, bem sei como a avó sofria, era pequena mas via isso. Não sei quando é que vou conseguir parar de me arrepender e de lhe pedir desculpa por não a ter abraçado mais e não lhe ter dito mais que adoro a avó, apesar de saber que a avó o sabia. Veja como eu agora lembro sempre à avó Teté que a adoro, é pelas duas, para não me arrepender outra vez de o ter repetido poucas vezes. Obrigada por todo o tempo que esteve comigo, e sei que agora está comigo a toda a hora, de uma maneira qualquer. Por favor, ajude o avô, lá em casa as coisas ficaram um caos desde que a avó desapareceu (a avó bem dizia antes de morrer que o seu maior medo era como ficaria a casa e a família depois de a avó desaparecer). Adoro-a avó, a sério. Descanse em paz.



Feliz Dia Avós. :)

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